Texto elaborado para o Loveless, projeto acadêmico de 2020, terceiro semestre do curso de Jornalismo da Universidade São Judas Tadeu.
Amor: sentimento de carinho e demonstração de afeto que se desenvolve entre seres que possuem a capacidade de o demonstrar. Ao menos assim o dicionário define o termo registrado no terceiro livro da quarta sessão da Sagrada Escritura Hebraica, os “Cânticos” (também conhecido como “Cantares”), onde muitos especialistas acreditam ter ocorrido um dos primeiros registros de poema romântico. “Seu amor é melhor do que o vinho”, diz um trecho das escrituras egípcias datadas de mais de 3.000 anos. Tendo naquele momento surgido a palavra ou não, a realidade é que “amor” é um termo tão antigo quanto nossa própria civilização.
Talvez a única coisa que possa realmente se afirmar acerca da junção dessas 4 letras é que, embora aparentemente inofensiva, tem capacidade de dar vida a uma imensidão de significados. O que abrange relações de sangue, sociais e até mesmo materiais. O laço inexplicável entre uma mãe e seu filho, a herança de família que, mesmo não passando de um simples objeto, pode ser considerada digna de afeto emocional, o que alguém sente pela música ou filme favorito. As manifestações do sentimento se moldaram, multiplicaram e transformaram ao longo da história, e é de tal metamorfose que esse texto nasce; desenvolvendo-se da perspectiva dele mesmo, o que é a busca de muitos da nossa geração (mesmo que admitir não seja assim tão simples): o amor romântico.
Cara Metade?
A ideia de alma gêmea apareceu pela primeira vez na cultura ocidental no livro “O Banquete”, quando o dramaturgo grego Aristófanes recorreu à mitologia grega para explicar a ideia do amor. Segundo ele, no início dos tempos o homem era um ser andrógino, com quatro pernas, quatro orelhas, duas cabeças e por aí vai. Tudo havia sido nos dado em dobro, sendo assim, éramos duas vezes mais habilidosos em qualquer atividade que nos fosse proposta. Os deuses, com medo de perderem seu espaço para seres aparentemente tão evoluídos, resolveram dividir todo e qualquer indivíduo, tornando-o dois. Desde então, o homem estaria procurando por sua metade perdida como forma de se livrar do sentimento de estar sempre incompleto.
Dos Amores Perfeitos ao Solitários:
A literatura, sempre amarrada ao seu período histórico, é talvez a melhor linha do tempo que se possa traçar a respeito das manifestações amorosas. No Trovadorismo (primeira escola literária da Idade Média), por exemplo, a conquista ficava por conta das cantigas de amor idealizado, retratando romances impossíveis e mulheres perfeitas. Não, a projeção da pessoa amada não é assunto de agora. Na realidade, muito do comportamento dos millennials pode ser visto também nas poesias do Barroco, onde uma das ideias centrais era: se a morte é a única certeza e Deus é um ser que perdoa constantemente, então por que não viver o agora e aproveitar os prazeres da carne? Juana Inés de la Cruz, poetisa mexicana desse período, escreveu no soneto “O que Ingrato Me Deixa Busco Amante” versos que, mal sabia ela, diriam muito sobre os sofrimentos dos jovens do século XXI: “constante adoro a quem meu amor maltrata, maltrato a quem meu amor busca constante”. E o que seria isso senão um jeito de dizer, parafraseando a sertaneja Marília Mendonça: “quem eu quero não me quer, quem me quer não vou querer?”
E a ideia de amor se moldou mais algumas vezes no campo literário ao longo dos séculos. No Romantismo, o desejo de morrer pelo amado era o que de mais bonito poderia existir, isso depois de um dos sentimentos mais marcantes nos autores da época: o amor platônico. O filósofo Platão, nascido muito antes de tudo isso, mal poderia prever, mas o que ele havia designado antes como um sentimento entre iguais, se tornou o sinônimo de falta de reciprocidade. E tanto por volta de 1770, época de surgimento dessa escola, como agora, em 2020, essa forma solitária de amar é tema de discussões que se arrastam dos grupos de pré-adolescentes até os jovens adultos.
E o Cinema?
O cinema também é um dos grandes responsáveis pelo registro dos anseios e medos dos apaixonados. O nascimento dos romances nas grandes telas se deu logo que os longas-metragens mudos alcançaram as massas, a exemplo de Luzes da Cidade, de Charles Chaplin. E o estilo sobreviveu à Era Clássica e à Nova Hollywood. Cada década teve como uma de suas principais marcas um filme do gênero. Nos anos 30, “E O Vento Levou”, nos anos 50, “Casablanca”, nos anos 80, “Dirty Dancing” e a lista de títulos de sucesso de bilheteria se estende até mais do que esse texto poderia mensurar.
De 1980 até meados de 2010, instaurou-se a era de ouro das comédias românticas no cinema. As histórias eram basicamente divididas entre: os estranhos que se esbarram ao acaso, os amigos que descobrem estar apaixonados um pelo outro e os dois opostos que, de alguma forma, se sentem irresistivelmente atraídos. As mulheres desejavam casamento e os homens tinham sua identidade completamente modificada após a descoberta do amor. Não se pode julgar por completo, afinal, se a arte transmite a maneira de pensar da sociedade, com as obras cinematográficas não seria diferente, e é por isso que a fórmula repetitiva funcionou por tanto tempo.
Mas é interessante pontuar que, partindo daqui, um fenômeno curioso e antes impensável surgiu: os filmes de amor foram, nos últimos anos, deixando as salas de cinema e cedendo espaço para blockbusters de ação, live actions e animações, os atuais prediletos dos espectadores. Segundo Billy Mernit, autor do livro “Writing the Romantic Comedy”, esses longas não conseguiram acompanhar as mudanças na forma com que a atual geração lida com seus romances. O escritor ainda explica que menos pessoas têm se casado ou casado cedo na atualidade. Somando isso à cultura dos encontros por aplicativo, surge uma mudança no que o público procura em termos de produções românticas.
O que consegue salvar tal maneira de documentar os formatos de amor ao longo da história? Os serviços de streaming. Por serem uma ferramenta em ascensão, tais plataformas se adaptaram ao diálogo do apaixonado contemporâneo, assim conseguindo produzir séries que expõem as complexidades na personalidade de cada indivíduo e suas jornadas por identidade própria, sustentando a ideia de que a busca por um parceiro ou parceira é sim muito importante, mas não deveria ser o ponto focal na vida de uma personagem. Não, o filme romântico não morreu, somente mudou de cara.
O Amor Moderno é Diferente
Considerando o tópico anterior, fica claro que a forma de se relacionar amorosamente hoje em dia apresenta uma série de características que divergem, e muito, de outros capítulos da história. O livro “Amor Líquido”, de Zygmunt Bauman, tenta nos explicar isso. Segundo o filósofo, a modernidade em que vivemos é atrelada à misteriosa fragilidade dos laços humanos, pois a segurança inspirada por essa condição estimula desejos conflitantes de estreitar elos e, ao mesmo tempo, mantê-los frouxos. Em outras palavras, diferente dos antigos poetas e dos protagonistas de filmes românticos, o amor não exige mais esforço, muito pelo contrário.
A facilidade para encontrar um pretendente e assim se apaixonar atribui a qualidade de substituível a toda uma sociedade, já que os ciclos finalizados conseguem, quase que instantaneamente, recomeçar com outra pessoa. Isso tudo graças às facilidades da internet. É como se os hábitos de consumo se refletissem em nossas conexões pessoais: assim como um aparelho celular pode ser trocado por outro ao menor sinal de falha, um namoro também pode.
A era da comunicação nos apresentou, como mencionado anteriormente por Billy Mernit, uma nova cultura. Os aplicativos de relacionamento e a popularidade das redes sociais tiraram da geração atual a paciência de esperar pelo acaso, já que qualquer envolvimento pode ser alcançado através de um simples download, com praticidade e rapidez. Softwares assumiram agora o papel de cupido.
Bem, seja mitificado como nas histórias da Grécia Antiga, idealizado como na literatura árcade, açucarado como nas comédias românticas ou líquido e passageiro como na modernidade, a realidade é que o amor é um sentimento que tem sobrevivido ao longo dos séculos e pacificamente resistido a cada uma de suas metamorfoses. Nas palavras do próprio Bauman: “amar é contribuir para o mundo, cada contribuição sendo o traço vivo do eu que ama”.
