Texto elaborado para o Loveless, projeto acadêmico de 2020, terceiro semestre do curso de Jornalismo da Universidade São Judas Tadeu. O gif acima foi criado por Jiaqi Wang, ilustrador e animador de LA.
Embora pareça uma invenção de agora, paralela à explosão das redes sociais e das infinitas conexões virtuais, conhecer pessoas de forma online é uma experiência que teve início ainda nos anos 90, mais especificamente em 1995. Na época, quando o acesso à internet era um privilégio de poucos e seu alcance mundial não passava de um sonho distante, inaugurou-se o Match.com, site que entregava uma nova esperança para os apaixonados: encontrar sua cara metade com alguns cliques, extinguindo a necessidade de sair de casa em uma verdadeira busca.
Demorou quase uma década para outra plataforma do gênero surgir; a OkCupid, lançada em 2004, antecedeu o Tinder em 8 anos, já que o aplicativo, queridinho nesse nicho, deu as caras somente em 2012. Daí em diante, o mercado de softwares do amor não parou mais de crescer. Bumble, Happn, Once, Her e algumas outras dezenas de nomes fazem enorme sucesso em distribuidores como o Google Play e Apple Store. A Match Group, responsável pelo Match.com, e dona de algumas das mais populares plataformas de relacionamento online, afirma: somente no Tinder, cerca de 26 milhões de combinações acontecem todos os dias. A empresa ainda conta com o Brasil como segundo maior público no mundo todo, estimando que 60% dos solteiros do país estejam utilizando seus serviços. Em outras palavras, a procura por afeto se tornou um negócio lucrativo.
Existem pequenas variações na dinâmica de combinação de app para app, mas no geral, os algoritmos visam cruzar usuários com interesses em comum e localizações próximas. Em meio a tantas possibilidades, praticidade é o maior foco. Sendo assim, depois de preencher alguns poucos campos com informações como localização, faixa etária, profissão e interesses, é só deslizar o dedo para a direita ou para a esquerda, se interessando ou rejeitando um mar de usuários.
Mas afinal de contas, quem são esses usuários e o que os leva a optarem por essa forma de se relacionar?
O Perfil
Alguns dados a respeito dos usuários desse tipo de aplicativo são, no mínimo, curiosos. Em pesquisa de alcance global realizada este ano pela equipe do The Inner Circle, um outro app do gênero, foi revelado que 60% dos entrevistados não têm mais interesse em encontros casuais, assim focando somente na possibilidade de um namoro sério. No mesmo levantamento, 63% das pessoas disseram ter instalado em seu celular mais de um aplicativo dessa categoria e 64,6% afirmam já ter tido encontros com pessoas que conheceram em ambientes virtuais.
Outra análise, desta vez realizada pelo Happn Brasil em 2018, revelou que em território nacional o cenário é um pouco diferente, e amor nem sempre é prioridade. 71% dos entrevistados mencionaram estar tentando fazer novas amizades. A segunda razão mais apontada para a procura pelos aplicativos seria o desejo por encontros casuais, e o último lugar no ranking estaria sendo ocupado pelos românticos incuráveis: aqueles na busca por um relacionamento sério.
O Lado B
Se por um lado o conceito de aplicativo de relacionamento é uma das criações mais interessantes e funcionais do mundo moderno, por outro é necessário analisar como seu sucesso estrondoso moldou a forma com a qual a sociedade enxerga o amor e as relações de intimidade. O avanço do mundo digital criou vínculos, desfez distâncias e levantou questionamentos acerca da profundidade dos laços que se formaram por meio dele. Segundo Thiago Almeida, psicólogo e mestre pelo Instituto de Psicologia da USP, citado no artigo “O amor na era dos aplicativos”, a quantidade de pretendentes e a rapidez com que se consegue obter informações sobre essas pessoas faz cair a chance de surgimento de um elo duradouro. A facilidade para se conseguir algo nesses espaços torna as relações bem menos comprometidas. Afinal, se as possibilidades de combinação são inesgotáveis, um indivíduo pode ser substituído por outro de forma prática.
A redução dos níveis de insegurança e medo de rejeição que qualquer ser humano teria em um encontro no mundo real é um dos grandes trunfos proporcionados pela tecnologia; mas a proteção por parte da tela do celular ou computador é carregada de aspectos negativos. Nas palavras do sociólogo e filósofo Zygmunt Bauman, famoso pelo estudo do amor na era da comunicação, ou “amor líquido”: “é fácil se conectar e fazer amigos nesses meios, mas o maior atrativo é a facilidade para se desconectar de alguém”. Existe aqui então a duplicidade do desejo por encontrar um par e ao mesmo tempo querer se livrar dele ao menor sinal de incompatibilidade. Como dito por cerca de 60% dos entrevistados na pesquisa acima: é mais fácil ignorar e esperar que aquela pessoa desista.
Além disso tudo, também é importante ressaltar: nos meios digitais, é simples distorcer e ocultar informações a respeito de si mesmo. Dessa forma, a chance que um usuário tem de se apaixonar por alguém que nem ao menos existe é muito alta. Tão alta quanto a probabilidade de entrar em um aplicativo e, em um ato inconsciente, procurar pelo próprio reflexo. Afinal, ao conhecer alguém pessoalmente, as características e gostos daquele interesse amoroso são entregues aos poucos e o conhecimento que os indivíduos adquirem a respeito um do outro é construído de forma natural. Nas redes de pareamento não se pode contar com o acaso, sendo assim, na grande maioria das vezes, ganhará um like quem tiver mais em comum com você, certo?
Mistério:
Bem, seja por fé nas paixões verdadeiras, por desejo sexual, pela simples vontade de fazer novos amigos ou como um passatempo que não ultrapassa o status de mera distração, a realidade é que o número de usuários que fazem download desse tipo de aplicativo não para de crescer. Os avanços tecnológicos tornaram-se fator de grande influência nas relações interpessoais de todo indivíduo, e estar sozinho é, mais do que nunca, apenas uma opção. As atualizações de plataformas de pareamento têm nos presenteado com um novo mundo de possibilidades, e viver nesse cenário pode significar, simultaneamente, a formação de novos laços de intimidade e um mergulho em relações rasas e superficiais. Independentemente de como for, não podemos esquecer que a escolha de um parceiro ou parceira envolve decisões inconscientes, coisa que, ao menos por ora, algoritmo nenhum conseguiu entender. O amor continua sendo um mistério.
